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Casa Comum das Tertúlias

Blog da CCT. Espaço de intervenção e de reflexão. Aqui a Cultura e a Democracia são as prioridades. Participem.

segunda-feira, setembro 08, 2008

ESTE MUNDO E O NOSSO*

ESTE MUNDO E O NOSSO


A certa altura, o buliçoso rapaz
esquadrinha o bolso dos calções,
e, entre o pechisbeque e dois piões,
descobre que o pretérito perfeito,
é o tempo que menos falta faz.

O que importa agora é o sujeito,
e ao que teve pode acrescentar
perto ou longe, os advérbios de lugar,
os caminhos por andar, a fantasia,
e tudo o que de mais tiver proveito.

É o princípio dos verbos a conjugar
muito além da física quântica
e, sem preocupações de semântica,
opor à regra a lei da utopia:
- Ninguém morre sem eu mandar!

*João de Sousa Teixeira (1952- )


Nota Editorial:
O poeta albicastrense João de Sousa Teixeira, deu-nos o prazer de aceitar o nosso convite para publicar os seus poemas nos blogues da CCT. Aqui deixamos o primeiro, para deleite dos nossos visitantes e leitores.

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1 Comments:

At 12:52 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Sobre a poesia de António Salvado: Algumas impressões




A António Salvado, à sua poesia, tenho devido não poucas satisfações e ensinamentos desde que há alguns anos com essa poesia contactei __ muito antes de ter o grande gosto de conhecer o seu autor. Sei, hoje, como é extensa e rica, regular e persistente, a poesia de António Salvado. E sei também como só à poesia se deve o seu valor e o seu reconhecimento pois se trata de um poeta arredado dos meios literários, vivendo e produzindo longe da capital e dos seus círculos de influência, decerto indiferente a essa geral aceitação, normal e felizmente passageira, que outros tanto procuram.
Em António Salvado é a poesia que fica, e é a poesia que vale. E se ele tem escrito muito! Há quarenta anos bem contados que os versos de António Salvado começaram a ser mostrados ao público, quase sempre em edições reduzidas e não fugindo, decerto, ao que é a normal recepção de obras de poesia no nosso País... Mas António Salvado é um perfeccionista e talvez por isso tenha antologiado a sua própria obra, e por mais de uma vez. Ultimamente organizou-a mesmo em termos de volumes que creio corresponderem à versão definitiva dos seus poemas, é certamente esta a obra que ele quer deixar para a posteridade.
Publicou, efectivamente, três grossos volumes, Obra I, Obra II e Obra III, correspondendo, grosso modo, aos períodos de 1955 a 1975, 1975 a 1995 e 1995 a 1999. Mas se alguém pensava que com esse acto de ordenação António Salvado se despedia das musas que há tanto tempo o acompanhavam estava muito enganado.
Após 1999, digamos pois que genericamente neste século XXI em que nos encontramos António Salvado já publicou 17 títulos de poesia. Não houve um único ano em que não tivesse comparecido com obra nova, e quase sempre com mais do que um livro. Em três anos __ 2001, 2002 e 2005 __ deu a lume dois títulos; em 2004 publicou 3 livros. O seu ano de glória foi, no entanto, sob esta óptica redutora e decerto que desadequada, 2003, visto que ele regista o aparecimento de quatro diferentes títulos, em outras tantas editoras. ( Não entro em linha de conta com o ano de 2007 por ainda ser uma criança; e não considero igualmente o livro «Ravinas» por desconhecer o ano da sua efectiva publicação. )
Agrada-me verificar esta constância, assim como a extensão e regularidade da obra. Num percurso poético tão rico como o de António Salvado __ e eu creio que mais do que a sucessão dos livros que vai publicando nele predomina, e é mesmo constante, uma atitude poética na forma de encarar a vida e o mundo __ são detectáveis algumas predilecções temáticas e algumas regularidades formais. De umas e de outras diremos alguma coisa.
Por predilecções temáticas entendo eu uma certa diversidade de motivos que em quase todos os livros __ e a mais recente confirmação está no Afloramentos, título já de 2007 __ são abordados pelo sujeito lírico. Para além da contemplação da natureza e da meditação sobre a experiência vivida, nos livros de António Salvado encontram-se, no geral, expressões de fé e confiança no futuro, histórias de casos ou figuras, porventura alheias, diálogos com a divindade, autênticas orações... O tu que com frequência António Salvado utiliza parece-me, às vezes, uma forma disfarçada de ele se referir a si mesmo. A impressão que predomina é, quase sempre, a da imprescindibilidade da poesia, a do conforto que essa presença significa, qual companhia a que o poeta se habituou e sem a qual já não poderia passar.
É muito bom sentir um poeta com esta confiança, com esta natural alegria, ou não fosse a poesia uma linguagem soprada pelo espírito dos deuses. Etimologicamente a inspiração tem a ver com este sopro divino __ é preciso é conservar os olhos da alma bem abertos. E se os deuses da poesia são exigentes não deixam __ também __ de corresponder em conformidade aos que lhes são fiéis.
Característica igualmente já consolidada no ofício poético de António Salvado é a substituição, quase total, da pontuação clássica por espaços em branco entre as palavras de um mesmo verso. ( Confesso que só há pouco compreendi melhor a lógica interna de tal processo. ) No geral as estrofes são regulares, e há como que uma reminiscência da rima, uma proximidade fónica, no final de cada verso. Ele tem mais liberdade do que na versificação tradicionalmente clássica __ mas vê-se bem que se infringe as regras estabelecidas é porque muito as conhece.
Em Afloramentos, por exemplo, a quase totalidade dos poemas são constituídos por três estrofes de quatro versos __ tal como em Castália, um título de 1996, nos deparávamos com um conjunto de 100 poemas, cada um deles constituído por quatro tercetos. E os seus livros, sobretudo os últimos, são sóbrios, sem títulos ou divisões internas, sem prévias explicações ou alongadas epígrafes. É a poesia que importa, é a recriação dessa atmosfera que o poeta procura, é sobretudo uma questão de postura __ generosa, aberta, solidária, porventura melancólica mas jamais cínica __ perante o mundo e a extrema e cíclica variedade da vida. E digamos que, no geral, o poeta é bem sucedido nesse seu esforço de sonhar __ e de exprimir __ o que está ao alcance de poucos.
Arrojadamente embora, e sem a responsabilidade que um perfil académico __ se o tivesse __ decerto me acarretaria, atrevo-me a pensar que esse predomínio das formas fixas na poética de António Salvado de que há pouco falava configura como que a adopção de uma certa espécie de soneto, uma forma muito peculiar de apresentar esse tão tradicional e difícil molde poético! E para tudo o poeta tem licença, é uma liberdade que de direito lhe é atribuída pela divindade a quem serve __ apenas nos cumprindo exigir que o resultado esteja à altura. No caso claramente está.
Reparei no modo como António Salvado empregava termos fora do seu contexto usual: bafagem, viveza, parola, balsamou sejam os exemplos escolhidos. Sem grande dificuldade, integrando-os no contexto em que surgem, facilmente lhes reconheceremos o significado; mas nem por deixamos de pensar que nós, provavelmente por ignorância, empregaríamos outro vocábulo. De algum modo é por essa via que o poeta constrói uma voz própria, cria uma imagem, fixa um perfil. António Salvado não é um poeta fácil __ e acreditem todos que esta constatação é uma coisa rara, e é um reconhecido elogio para quem, como ele, o merecer.
Com o decorrer da leitura, aliás, facilmente delimitamos um corpo central de vocábulos que lhe são muito característicos, brotos e ambages sejam os exemplos escolhidos. Mas outros poderiam igualmente ser apresentados: brancor ou queimor, cridas, folhame, afoiteza, vasteza. No contexto compreendemos imediatamente o que o poeta quer dizer. Mas a surpresa no ouvido, essa permanece. É visível como ele constrói verbos a partir de adjectivos e substantivos: baforar, alvoreja, pradeja, aurorava; ladeirar, atorrejam, bemolou, barquejam, fadigar são bons exemplos desse trabalho de inovação sobre o corpo da língua. António Salvado, saudável e provocantemente, coloca-nos em questão: deverá dizer-se colorando ou colorindo? Amoráveis ou amorosas? E facilmente vemos que não foi por razões de métrica ou de rima que escolheu determinada fala e não outra. Não, o poeta lá terá as suas razões.
A esse aspecto de enriquecimento do vocabulário sou eu particularmente sensível; uma língua não evolui apenas com a progressiva e quantas vezes acéfala aceitação de neologismos, admitamos que porventura um tanto inevitáveis face à evolução da própria vida. Também muitos dos termos que em outros tempos foram usados podem agora ser reaproveitados e a outra luz utilizados... O trabalho de António Salvado é notável neste campo __ e tanto o é que até duvido que sejam gralhas dois ou três exemplos que à primeira vista como tal se me afiguraram. Não é este o sítio nem a ocasião para deslindar tais minudências.
Espero que não tenha sido inútil esta singela apresentação de alguns dos aspectos da «oficina poética» de António Salvado, tal como me pareceu entrevê-los, do lado de fora, a uma prudente distância. Oxalá os que me lêem possam ser sensíveis a essa riqueza e com ela possam crescer e evoluir; e oxalá não perca o poeta a capacidade de surpresa e encantamento, e por muitos e bons livros nos continue a iluminar a existência, e a fazer-nos parte dessa linguagem divina que é a poesia. Porque, nestes casos, só a poesia importa e só a poesia fica, e é dessa poesia que eu quero dar fé e, tanto quanto possível, fazer apostolado.
Simbolizando um dos marcos essenciais da minha geografia de Portugal, passei a associá-lo a Castelo Branco __ tal como jamais passava em Coimbra sem prestar a minha homenagem ao famoso otorrinolaringologista da Praça da Portagem! E de todas as vezes que por ali passo __ e agora, da auto-estrada , já mal se divisa a cidade __ me lembro dele, e progressivamente interiorizo a falta de que agora aqui me faço eco, dando pública voz ao que de há muito é um lamento privado:
__ E então, ó homem, essa Obra IV quando é que aparece?
E pelo andar da carruagem, felizmente, já não chegará um quarto volume. Haverá certamente um quinto __ e quem sabe mesmo se um sexto ( e um sétimo. )
Que o poeta nos não desiluda é o que peço a Apolo e a todas as musas. E que trabalhe sempre, que trabalhe mesmo que a voz lhe doa __ que este saudável egoísmo de voraz leitor me seja perdoado. No fundo, no fundo, sei que não estou sozinho nesta reivindicação __ e que o próprio António Salvado me compreenderá, e consigo mesmo sorrirá. Sabemos ambos que ao primeiro verso os deuses o dão __ mas só a esse. E sabemos também que o envolvimento com a poesia é para toda a vida. Haja esperança.



Cristino Cortes

 

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