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Casa Comum das Tertúlias

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quinta-feira, setembro 16, 2010

Corpo todo, de Gonçalo Salvado



Gonçalo  Salvado

 Lançamento do livro de poesia Corpo Todo de Gonçalo Salvado 
(Editora Labirinto)
 No Museu Guerra Junqueiro (Porto)
18 de Setembro (sábado – 21.30 h )


No contexto das comemorações dos 160 anos do nascimento de Guerra Junqueiro, vai ser lançado no Museu Guerra Junqueiro (Porto) dia 18 de Setembro (sábado – 21.30h) o livro de poesia Corpo Todo de Gonçalo Salvado (Editora Labirinto, Fafe) com prefácio do filósofo Alexandre Franco de Sá e fotografias de José Miguel Jacinto. 
 Nascido em 1967, em Lisboa, Gonçalo Salvado tem vindo a afirmar-se como um poeta exclusivo do amor. Publicou cinco livros de poesia: Quando, A Mar Arte, Coimbra, 1996; Embriaguez, Sirgo, Castelo Branco, 2001; Iridescências, Sirgo, Castelo Branco, 2002, Duplo Esplendor, Afrontamento, Porto, 2008 e, muito recentemente, Entre a Vinha, Portugália Editora, Lisboa, 2010 (obra que será lançada no Museu Vinho Bairrada, em Anadia, dia 25 de Setembro (sábado – 16.30 h) e cuja apresentação estará a cargo de Fernando Paulouro, autor do prefácio).
 Acerca de Corpo Todo escreveu Alexandre Franco de Sá:
“Ao invés de expressar o encontro amoroso na abstracção sublimada da sua vivência, ao invés de introduzir uma distância entre o amor e a palavra que o celebra, Corpo Todo oferece-se antes como o próprio arrebatamento do amor tornado palavra”.  

Prefácio a Corpo Todo de Gonçalo Salvado*

No altar profano
de teu corpo
oro a todos os deuses

 Conta Diógenes Laércio, na sua conhecida Vida dos Filósofos Ilustres, que Heraclito de Éfeso, a quem se deve o primeiro uso do nome filosofia, ao terminar a composição do seu livro, foi depositá-lo piedosamente no templo de Ártemis, aos pés da deusa. Assim é, também, com o presente livro de Gonçalo Salvado, Corpo Todo. Também este é uma obra deposta aos pés de uma deusa. Todo ele é a evocação de uma mulher divinizada, exaltada em cada imagem luminosa, em cada palavra depurada até à expressão do essencial, em cada verso desadornado do que quer que seja de supérfluo.
 Corpo Todo é, por isso, um livro de desassossego. Trata-se de um livro cujos poemas são o dizer sempre diferente de um mesmo. Cada poema encerra aqui a mesma celebração do amor, em todas as suas dimensões, desde a erótica à mística. Cada um destes poemas é o testemunho de um encontro arrebatador; é a presença de um ímpeto que, no encontro com a mulher amada, eleva o homem, numa simultaneidade paradoxal, para o mais íntimo de si e para uma inebriante transcendência sempre espantosa, enigmática e insuspeita.
Corpo Todo é, então, um profundo testemunho vivido, não um retrato meramente sentimental. Os versos deste livro não falam propriamente do amor. Ao invés de expressar o encontro amoroso na abstracção sublimada da sua vivência, ao invés de introduzir uma distância entre o amor e a palavra que o celebra, Corpo Todo oferece-se antes como o próprio arrebatamento do amor tornado palavra. Dir-se-ia que o arrebatamento amoroso é o seu centro, a sua fonte convertida em verbo. E é por isso que ele é um livro constituído por fugazes imagens lapidares, por instantes em que o amante se dirige directamente à mulher que o arrebata. É por isso que as palavras são aqui não comunicação, não expressão de uma mediação entre o que é distante, mas simples testemunho da mútua pertença do que se funde numa unidade.
A mulher aqui divinizada, celebrada como a imagem encarnada da transcendência, é para o poeta de Corpo Todo também a condição do seu encontro consigo mesmo. Daí que o corpo despido desta mulher seja, como se lê num dos poemas, o próprio vestido da sua alma. A nudez do corpo feminino que se entrega é, no seu despojamento, o ímpeto ígneo para que a alma do poeta se eleve, se revista de si própria, encontrando-se consigo mesma e tornando-se verdadeiramente quem é. E todos estes poemas são, por seu lado, o cristalino despojamento de uma alma que ama, de uma alma cujas palavras falam também por silêncios, apresentando-se inteiramente despidas de tudo o que não seja imprescindível.
É neste jogo fecundo entre encobrimento e despojamento de corpos que mutuamente se entregam que todo este livro se desenvolve. Depositado aos pés do corpo despido de uma mulher tornada deusa, dir-se-ia que os poemas de Gonçalo Salvado se oferecem também, como o mencionado livro de Heraclito, a uma mulher elevada à condição da deusa Ártemis. Uma tal deusa, casta e selvagem, perigosa na sua virgindade, é aquela que se subtrai sempre à plena realização de um desejo que se extingue na sua consumação. Assim é também a mulher evocada em Corpo Todo.
No corpo desta mulher que se entrega está sempre não uma chegada, mas um renovado ponto de partida, aventurando-se numa ousada navegação em que os dois amantes, juntos, são os mastros de um navio que ruma ao incerto. Os poemas de Corpo Todo são, então, o lugar da coincidência entre o desejo imenso, o arrebatamento inextinguível para o que é sempre inalcançável, e a cumplicidade íntima da ternura de uma viagem feita a dois. No belíssimo livro de Gonçalo Salvado lê-se, em última análise, a festa desta coincidência. E é este, penso, o segredo cativante destes versos, lembrando que a frescura primaveril da aurora se esconde, renovada, em cada Inverno que a parece extinguir, ou em cada Verão em que ela mesma se consome.

*Alexandre Franco de Sá


Livros de poesia de Gonçalo Salvado: 


Quando – A Mar Arte, Coimbra, 1996
Embriaguez – Sirgo, Castelo Branco, 2001
Iridescências – Sirgo, Castelo Branco, 2002
Duplo Esplendor - Afrontamento, Porto, 2008

Corpo Todo – Labirinto, Fafe, 2010 

Brevemente:
Entre a Vinha – Portugália Editora, Lisboa, 2010

Nota editorial:

Com base na nota enviada para a imprensa.

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